compromisso e vontade

Cheguei à conclusão por esses dias que agora eu fiquei velha! Quero dizer… eu, que completei 50 anos ano passado e escrevi um texto sobre como não me sentia uma senhora de 50 anos, cheguei à conclusão, não sem certo espanto da minha parte, que acho que me tornei essa senhora! 🙂

Naquele mesmo texto escrevi ‘o que quer que seja que isso signifique’ e hoje escrevo para dizer que, de repente, sinto uma diferença brutal e muito incômoda com certos comportamentos muito comuns nas gerações que vieram depois de mim; e talvez seja isso que signifique ‘ser uma senhora de 50 anos’. Quero dizer… me parece que, uma linha nada tênue ficou agora clara para mim, sobre o que pode ser uma faceta do que significa passar para a geração ‘dos velhos’! Afinal, chamamos velhos aqueles que sentam a reclamar dos comportamentos das novas gerações, né? Pois então, essa agora sou eu! 🙁

Mas vamos ao que importa de fato aqui. Tenho sentido um incômodo muito grande com o que me parece ser uma falta de capacidade de assumir compromissos e cumprir combinados que as gerações mais novas têm. Eles raramente se comprometem com horários, com relacionamentos, com um objetivo de longo prazo, com o outro de forma geral…

Sempre me incomodou, por exemplo, a forma do meu filho (e toda a sua geração) responder à maioria das perguntas que lhe são feitas com um ‘pode ser’. Ao que eu sempre respondi. ‘Pode ser não, ou você quer ou não quer. Não estou te pedindo nada, estou perguntando o que você quer/deseja/prefere. Qual é a sua vontade?’

Porque o que pode parecer uma flexibilidade e abertura ao desejo do outro, colocando-se receptivo e disponível, na realidade é um não compromisso com o que se quer e por isso, com o outro, de forma verdadeira e profunda! Quando colocamos nossa vontade no mundo abre-se um espaço de diálogo, caso a nossa vontade não seja a mesma do outro, a partir do qual pode-se ampliar as percepções sobre si e sobre o outro, pode-se negociar, pode-se compor… e isso é verdadeiramente estar compromissado consigo e com o outro. Estar aberto e entregue à transformação que promove o verdadeiro encontro!

Além disso, para mim, a manifestação da vontade é uma das coisas mais importantes no desenvolvimento da consciência. Não, não estou falando dos desejinhos do Ego, do só fazer o que eu quero, na hora que eu quero, porque eu quero. Não não. Essa é a sombra da vontade. E justamente me parece, que essa sombra é o que eu tenho sentido nas gerações que vieram depois de mim. Todos seus pequenos e cotidianos desejos e necessidades precisam ser acolhidos. Gente como assim?? Existe a sua necessidade, a minha necessidade, a necessidade do grupo, a necessidade do todo…. Mas muitos parecem não entender isso muito bem! Pelo menos para mim, no momento, parece assim! 🙁

Para a geração dos meus pais, e anteriores, por exemplo, um compromisso e combinado era absolutamente inegociável, incontestável e, dessa maneira, causava muito sofrimento. Porque sim, claro, há compromissos e combinados que depois de assumidos precisam ser revistos, renegociados e discutidos e não podem ser uma prisão para o resto da vida!

Sinto que minha geração caminhou nessa direção, dissolvendo casamentos, mudando de profissão, de cidade, de país, como nunca nas gerações anteriores. Mas sinto que fomos perdendo a mão e sendo levados coletivamente, pela enantiodromia, ao lugar oposto, a cada nova geração. (Enantiodromia é um processo inexorável, segundo Jung, através do qual uma força extrema de um lado vai gerar uma força oposta de mesma intensidade do outro, constituindo um fio de tensão entre opostos: persona e sombra, consciente e inconsciente, Ego e Self; que mantém o equilíbrio (não saudável) da psique, evitando que ela se rompa por uma força extremada de um único lado)

Meu sentimento é que as gerações que vieram depois de mim, e cada vez mais, não tem se comprometido verdadeiramente com nada. E mesmo quando se comprometem com algo, quebram os combinados e compromissos sem qualquer constrangimento ou cuidado com o outro que fazia parte daquele compromisso, daquele combinado.

Observando do ponto de vista do desenvolvimento da consciência me parece um cenário triste.

A Vontade é uma expressão anímica enquanto o desejo é do Ego. Reconhecer a Vontade verdadeira, que toca e permite à nossa Alma estar no mundo, exige autoconhecimento. Autoconhecimento e consciência de si. Introspecção. Para Santo Agostinho Deus é Vontade. Para os Tantras, a Vontade da Grande Consciência se manifesta no mundo através de nós. No ‘Pai Nosso’, ‘seja feita a Sua Vontade, assim na Terra como no Céu, ou seja, é preciso que a Vontade do Céu se encontre com a Vontade na Terra para que o divino se manifeste.

Mas se não temos ouvidos para ouvir a Vontade que fala dentro de nós ou a coragem para segui-la e colocá-la no mundo, como o divino vai se manifestar em nós e no mundo?

Poder reconhecer quando é uma Vontade ou um desejo aquilo que fala em nós e que norteia nossas escolhas e decisões exige compromisso de longo prazo consigo e, por consequência, com o outro. Não tem outro jeito. O desenvolvimento anímico, nos tornarmos o Self que somos, nas palavras de Jung, exige compromisso e Vontade! Não é de desejinho em desejinho que chegaremos a um lugar de inteireza e manifestação anímica.

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