parasita

atenção: contém spoilers

Eu fiquei maravilhada com o filme! Não sou muito de filmes que ganham Oscar muitas vezes… sei lá, alguns são bons mas outros simplesmente não fazem meu estilo de filme. Mas esse!! Nossa, nossa, foi profundamente merecedor das estatuetas que recebeu, na minha opinião!

Não vou falar sob o ponto de vista do cinema, porque desse não manjo nada. Apenas gosto ou não! 🙂 E esse eu adorei!!!

Mas sob o ponto de vista do conteúdo. Meu Deus, como eles conseguiram colocar tantas verdades em cada cena, em cada fala, em cada personagem!? Para mim é um retrato absoluto da sociedade que vivemos no planeta Terra no ano de 2020! Vi tantos símbolos nesse filme que fiquei pensando sobre ele, sentindo o filme vibrar em mim e conversando com amigos sobre ele por diassssss! 🙂

O que vi nesse filme:

  • Obviamente, como para todos, a absurda, vil, abusiva e indignante desigualdade social em que vivemos! Como assim? Como chegamos até aqui? Como permitimos que chegasse até aqui?? Como conseguimos dormir à noite com essa verdade, sem remédio psiquiátrico?? Não… não é possível que continuemos a aceitar!!

  • O patriarcado explicitado na sua forma mais íntima e esmagadora na cena em que a menina pergunta para a mãe porque ela não ofereceu o macarrão para ela se ela também gosta, já que ela ofereceu para o pai e para o irmão? A mãe não dá a menor importância para a pergunta da menina, rebate e por fim o pai grita de longe reclamando porque elas estavam discutindo apenas por um macarrão! Não, não era essa a discussão!! Atendendo majoritariamente mulheres e sendo uma mulher criada numa família profundamente patriarcal (até hoje meus irmãos tem absoluta preferência em tudo!), sinto diariamente a dor das mulheres que tem imensa dificuldade de reconhecer seu valor já que nunca são reconhecidas e vistas e valorizadas na família. Simmmm até hoje!! Como assim??

  • A face mais tenebrosa da dominação promovida pela extrema desigualdade social gerada pelo capitalismo e explicitada na dinâmica entre as governantas. Quando a ex-governanta chega para pedir a ajuda da nova, escondida da patroa, ela chama a outra de irmã. Depois, quando sente a chance de passar por cima da ‘irmã’ para reconquistar seu lugar ‘de preferência’ junto à patroa não hesita em não mais vê-la como ‘irmã’. Não é isso que vemos acontecer o tempo todo no mundo em que vivemos? Não há mais luta de classes porque o que o capitalismo de consumo e acumulação fez, propositalmente, foi isso: que as pessoas queiram apenas estar mais próximas dos que tem esse poder (de consumo e acumulação) que lhes ‘garante felicidade’ e para isso lutam entre si!! Triste!

  • A vida vazia e alienada da elite financeira do planeta. Aqueles 1% que ficaram com 84% da riqueza produzida no mundo em 2017 segundo dados da Oxfam, mostrados na cena do ‘sexo no sofá’. Eles precisam de ‘calcinha barata’ e drogas para ter alguma excitação na vida! Triste e real!!

  • A sociedade que dopa qualquer indivíduo que veja ‘um pouco além’ daquela dinâmica doente e inconsciente em que vivemos para que ele também ‘se encaixe e não incomode’. Na dinâmica da família com o menino que viu o homem que morava no porão, que sentiu o mesmo cheiro em todos os novos funcionários da casa etc… mas foi desacreditado e tratado como ‘o problemático da família’ e foi dopado.. eu vejo isso acontecer , com muita gente o tempo todo. Vocês não??

  • A forma como temos criado nossos filhos, com excesso de atenção e controle, colocando-os no centro absoluto do nosso viver! A história do aniversário do filho e toda mobilização para ‘evitar o trauma’ dele, e deixá-lo fazer o que ele quisesse e… meu Deus! Achei maravilhoso o filme explicitar essa coisa ridícula que vejo acontecer na sociedade em que vivemos. Pais que se perdem completamente nesses limites entre quem é pai e quem é filho! 🙁

  • A ignóbil alienação em que estamos mergulhados sobre as necessidades e possibilidades do outro. Na cena obvia da chuva, em que a patroa acorda maravilhada com o céu azul depois da chuva enquanto as famílias dos porões estão sofrendo um absurdo! Mas também nos diálogos entre o patrão e o motorista em diferentes momentos, culminando com aquela frase ‘vamos te pagar hora extra’! Ah tá! Pagando bem que mal que tem né? Vale tudo!!?

  • Aquela cena da jovem fumando um cigarro sentada em cima da privada de onde vaza ainda mais esgoto no banheiro já alagado! Para mim símbolo desse lugar de naturalização e resignação onde, tamanhos absurdos que viemos aceitando, nos fizeram chegar!

  • Como o capitalismo, na face que permite que muito dinheiro seja ganho sem esforço, sem trabalho e que por isso elimina o processo do valorar-se, do valorar o percurso, do valorar do outro que foi parte do percurso que te permitiu estar ali. Se vem de graça, se vem rápido, se vem sem processo, não tem valor real, que é, para mim, a riqueza do processo de viver e reconhecer-se no caminho! Quando a riqueza material vem sustentada por essa outra riqueza a relação com o dinheiro e com o mundo é MUITO diferente do que vemos no filme. Pelo menos eu vejo assim!

  • Ou ainda numa outra face do capitalismo que por sustentar, para a maioria, um modo de vida que não atende as necessidades básicas do viver, do que nos torna humanos e nos possibilita transcender essa dimensão material da vida, nos torna ‘ratos, baratas, parasitas’. Aquela cena do Kim se arrastando no chão da sala e que, quando uma luz é acesa, paralisa imediatamente onde estava – imitando o comportamento das barata, por exemplo – pode ser uma boa cena para simbolizar o que quero dizer… mas tem muitas e muitas e muitas outras…

  • Ah sem falar é claro, da nossa dependência absoluta do WhatsApp e da tecnologia em geral – base dessa sociedade alienada e alienante – que já diz tudo na primeira cena do filme né?

Anyway, eu poderia continuar falando quase infinitamente porque para mim cada cena e cada diálogo desse filme está colocado ali com um brilhantismo e significado profundos! Mas só queria mesmo aproveitar o impacto que o filme me causou para dividir algumas reflexões que me rondam cotidianamente com mais alguém que possa sentir como eu!

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2 Comentários
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Ana Feres
1 ano atrás

🙂 demais né? obrigada minha querida!

Priscila Gonsales
1 ano atrás

Muito bons insights! O filme é um arraso mesmo!

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sobre o blog

Esse blog nasceu de um constante mergulhar em mim mesma e no universo ao meu redor.

Traduzir em palavras os sentimentos que me atravessam me ajuda a organizá-los e refleti-los.

Perguntar-nos ‘Quem sou eu?’ é pra que estamos aqui! E eu espero te inspirar a explorar esse tema.

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This blog was born from the constant dive into myself and the universe around me.

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