sobre mestre, gurus, retiros e workshops # 2

Foram quase 7 anos – a completar em 23/12/2025 – desde que escrevi o primeiro texto sobre mestres, gurus, retiros e workshops, que você pode ler aqui, onde contei brevemente minha longa trajetória com a pergunta “Quem sou eu?”, e como ela me levou a participar em muitos retiros, caminhos espirituais, escolas iniciáticas… e a reverenciar muitos mestres e gurus… Naquele texto também digo que a partir dali eu queria viver meus “40 dias no deserto”, para viver essa pergunta sem nenhuma interferência externa desse tipo.

Well, passado todo esse tempo me deu muita vontade de dividir minha experiência e ponto de vista de hoje! Pois foi a melhor decisão que poderia ter tomado! 🙂

Também no texto minha rubedo aos 56 anos, conto um pouco como, a partir daquele momento, entrei num processo de nigredo muito muito profundo. Foram muitos os acontecimentos e que exigiram mergulhos dolorosos em muitos aspectos da minha vida. Afinal o que esperar quando nos propomos a viver nossos “40 dias no deserto”, né? Até que no meu aniversário deste ano, como conto nesse mesmo texto, eu senti a rubedo chegar e aqui estou, 6 meses depois, experienciando a vida com cada dia mais sabor e inteireza.

Hoje eu tenho uma visão muito crítica a qualquer movimento de massa cujo objetivo seja o “desenvolvimento humano”, “evolução espiritual” ou qualquer outro nome que se dê a esses grupos, escolas, linhagens, mestres ou gurus “espirituais”. E afirmo, seja pela minha própria trajetória e ou pela minha observação no consultório, que são extremamente prejudiciais e atrasam sobremaneira o desenvolvimento da consciência e, portanto, da própria espiritualidade. Não estou dizendo que não teve nada que me serviu ou me ensinou nos diferentes lugares onde estive, mas, sinceramente foi muito mais prejudicial que benéfico em muitos sentidos e, sim, foi um atraso de vida no meu processo de autoconhecimento. E é assim que também sinto nas pessoas que me procuram no consultório e cuja trajetória passa por diferentes escolas, movimentos, seitas, gurus e etc.

O que acontece, hoje eu vejo, é que na tentativa de corresponder aos “ensinamentos” dos mestres e gurus, pertencer ao grupo ou ser  “o melhor discípulo”, começamos, num processo lento e inconsciente, a fingir sermos quem não somos. Obedecemos a regras que vem de fora de nós, repetimos “verdades” incontestáveis, copiando tudo num efeito manada e vamos seguindo nos achando super especiais. E isso reforça a camada Persona de cada um de nós, aquela máscara do eu que, para se adaptar ao mundo, se molda e esconde tudo que não ‘cabe’ ali, ou que nos parece vai ser desaprovado, rejeitado se colocarmos no mundo… assim, à medida que caminhamos, vamos reforçando nossas ‘personas’ especiais, iluminadas e perfeitas… fazendo crescer na sombra a força oposta, densa e escura, onde escondemos todo o ‘mal’ que nos habita. Mas Persona e Sombra são partes nossas que estão se manifestando no mundo o tempo todo, mesmo que não percebamos ou achemos que não. São muitos exemplos dessa verdade em diferentes escritos da história humana: “Quando Pedro fala de Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”, “Não somos senhores na nossa própria casa”, “O bem que eu quero não faço, mas o mal que não quero, esse eu faço”… E no processo terapêutico conseguimos ver isso com muita clareza! Esse texto pode te interessar para compreender melhor a dinâmica psíquica em Jung.

Acontece que o desenvolvimento da consciência humana e a transformação do ser são extremamente lentos, diferente do tempo da caminhada nesses grupos, onde precisamos crescer, melhorar, subir na posição hierárquica da instituição… e rápido. Tempos incompatíveis, pois como disse Jung “Reeducar uma pessoa, que em grande parte é inconsciente da sua própria personalidade, até que ela mesma se veja em condições de trilhar, conscientemente, o caminho certo, e reconheça claramente a sua responsabilidade social, é – qualquer pessoa inteligente há de concordar comigo – um processo demorado e cheio de percalços.”(OC 16/1 §43)

Vejo também que muitos de nós que honestamente buscam respostas às perguntas fundamentais da existência, como é a pergunta “Quem sou eu?”, sentem dúvidas enquanto estão vivendo nesses grupos, mas não damos ouvidos suficiente, pois nos é ensinado que se não estamos totalmente entregues/dentro do movimento é porque ainda não entendemos algo, não desenvolvemos algo, não temos um coração puro… E seguimos forçando/sendo forçados pela necessidade de pertencer, pelo medo do desconhecido “fora dali”, ou de não sermos bons o suficiente.

E em todos os lugares por onde passei (ou conheci por intermédio de clientes), sem exceção, a linguagem é sempre muito parecida, principalmente na fala “nós” X “eles”, sendo nós os que seguem a seita, o movimento, o guru, e eles os que estão fora, os perdidos, desencaminhados, pecadores, errados… E eu estou incluindo aqui escolas psis também – sejam da psicanálise, junguianas, sistêmicas ou qualquer outra… para quem está dentro tudo, para quem está fora, nada. Assim pegando-nos naquele ponto mais frágil do ser humano que é o medo da solidão, da exclusão, do não pertencimento a nada nem ninguém. Também nos pegam no fator financeiro, pois pertencer àquela escola, grupo, movimento ou seita, nos garante negócios, muitos negócios. Já notaram como as pessoas começam a fazer suas trocas exclusivamente entre os participantes do mesmo grupo, seita, escola…?

O que posso dizer que aprendi de verdade nesses meus “40 dias no deserto” é que o autoconhecimento e a consciência de si-mesmo e do todo, que vem junto, só pode vir mesmo de dentro de cada um de nós. Sem shortcuts. É no processo terapêutico que podemos tomar consciência dos ‘afetos’ que nos constituem (para Jung afeto e emoção são a mesma coisa), ou seja, das emoções que estão gravadas em nós e que moldam nosso comportamento no mundo, nossa Persona. E ao mesmo tempo, tomando consciência de tudo que está guardado na Sombra, sejam aspectos positivos ou não. Mas que ao integrarmos, pouco a pouco, na consciência, nos possibilita estar no mundo não mais como seres em conflito, mas como seres inteiros em nossas verdades únicas e nossas potências mais belas. Nos tornamos donos de nós mesmos, livres de verdade.

Para mim, a verdadeira espiritualidade é a consciência. De si mesmo e do todo ao qual pertencemos. E me sinto muito bem acompanhada dentre tantos outros, por Jung, que abriu mão de todas as instituições das quais fazia parte, do status e do poder, em nome da busca pela verdade dentro de si; por Marie-Louise Von Franz, que mesmo sendo uma das principais colaboradoras de Jung, após sua morte, não hesitou em se distanciar do Instituto Junguiano de Zurich, quando a instituição, na sua visão, tornou-se dogmática e a distanciava da verdade da sua alma; ou por J. Krishnamurti, que apesar de ter sido criado para ser o líder espiritual da Sociedade Teosófica, dissolveu a sociedade tão logo assumiu o posto, por não acreditar no caminho institucional para o desenvolvimento espiritual… enfim…

Vou terminar esse texto com a citação de um trecho do discurso de Krishnamurti em Mumbai na Índia em fevereiro de 1995, que está no livro A Psique e o Sagrado, de Lionel Corbett, na pág. 159. “Para ele, só existe uma coisa importante: uma mente atenta. Ele acredita que não existe essa coisa de bem e mal; existe apenas um estado da mente que está ou não desperta. A bondade, portanto, não é uma qualidade particular, nem uma virtude, mas um estado de amor. A moralidade não pode basear-se simplesmente na necessidade de ordem social e segurança; deve basear-se na descoberta da inteligência espiritual.”

Despertemos, pelo amor da Deusa, de Deus, dos deuses! 🙂

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sobre o blog

Esse blog nasceu de um constante mergulhar em mim mesma e no universo ao meu redor.

Traduzir em palavras os sentimentos que me atravessam me ajuda a organizá-los e refleti-los.

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This blog was born from the constant dive into myself and the universe around me.

To reflect into words the feelings that emerge, helping me to organize and translate them.

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