“ninguém se torna iluminado…”

“…por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão” Carl G. Jung

Dentre tantas maravilhas ditas por Jung, sinto que essa frase tem um valor inestimável para os tempos sombrios que estamos vivendo. Na contramão do movimento ‘new age’ que acredita em ‘good vibes only’, pensamento positivo que atrai o que você deseja e as fórmulas atuais de ‘espiritualidade’ em pílulas de conhecimentos e técnicas que ‘iluminam’ seus seguidores, Jung propõe outro caminho com essa fala.

No processo de viver, e moldar um eu adequado e adaptado ao mundo ao nosso redor, vamos acumulando no ‘quarto escuro’ da nossa psique muitas dores, vergonhas, traumas, potências reprimidas, desejos proibidos, medos e mais medos… quer reconheçamos esses conteúdos sombrios, ou não, eles vão influenciar a nossa vida.

Quanto mais tentamos esconder as nossas sombras, mais elas aparecem de forma tortuosa e negativa, sem que percebamos. Aquele eu que o mundo vê, pode mostrar-se de uma forma completamente diferente da imagem que queremos passar. Ou da imagem que temos de nós mesmos.

Enquanto estamos tentando reprimir nossos ‘pontos fracos, vulneráveis, desequilibrados, feiosos ou vergonhosos’, por exemplo, na busca pela perfeição aparente, de ‘sermos seres iluminados’; eles aparecem, quando menos esperamos, em projeções afetivas e relacionais, em doenças psicossomáticas, em atitudes rígidas, ansiedade e tensão…

A proposta de Jung que eu entendo e acredito é nos levar por outros lugares. De ter a coragem de olhar aqueles comportamentos, pensamentos e atitudes que não gostamos em nós, que projetamos no mundo e não vemos.Reconhecer nossas ‘santas e putas’, nossos opostos; Persona e Sombra sendo iluminadas num processo consciente de compreender, chorar e ressignificar as memórias e dores contidas, nossos complexos afetivos – desde que nascemos nossa psique vai sendo impregnada pelos afetos que recebemos; afeto = aquilo que nos afetou, nos marcou.

Olhar para esses afetos, vergonhas e potências. Olhar esse eu que está no mundo e acolher, ouvir, conhecê-lo tão profundamente que consigamos olhar pra ele com amor, pela compreensão de quem sabe quais as dores constituintes daquele eu. Chorar e curar essas dores. Transcendê-las.

No processo, vamos integrando as belezas desses opostos, e criando um círculo de possibilidades de ser muito mais harmônicas com a nossa alma, nosso eu mais profundo e verdadeiro que veio aqui realizar-se. Ficamos menos reféns dos conteúdos inconscientes que determinam a nossa vida quando reprimidos, sem que possamos escolher. Ganhamos flexibilidade psíquica, energia vital e força para colocar nosso eu mais verdadeiro no mundo. Nos transformamos.

Ganhamos mais amor por nós mesmos quando conseguimos olhar nossas dores e afetos, e consequentemente ganhamos mais amor pelos outros, pois se não sabemos quais são suas dores específicas, por conhecermos as nossas, naturalmente colocamos mais consciência e cuidado com as deles também. <3

E aí sim, ampliando a consciência que nos permite aumentar nossa capacidade de amar, a nós mesmos e aos outros, podemos talvez encontrar o caminho da iluminação.. (o que quer que isso seja!) 🙂

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